sábado, 29 de setembro de 2007

Concreto e Neoconcreto

Relato de uma experiência: Nenhuma idéia visível parecia surgir para a (neo!?) concreção do projeto (subjetivo, não objetivo). Ou melhor, um material que pudesse ser composto no poucoespaço de tempo disponível, com seriedade e envolvimento libidinal. A tensão (ou desespero de pessoa "certinha") se apodera da (in) consciência, projetando-se num mergulho sobre a superfície branca (bidimensional) de uma folha de papel ofício A4. Então, a escolha do material perde a excessiva importância e o simples folha adquire um status de possibilidade de realização de uma idéia nem sequer ainda (neste caso, conscientemente) imaginada. Neo-concreto; o estilo e seu nome remetia a uma tradição construtivista; a associação com formas geométricas e medidas matemáticas é óbvia (principalmente, para o senso comum); apanhei uma régua de 30 cm e sem pensar (ou planejar) muito, desenhei um retângulo de 15cm x 25cm e tracei usando um compasso um meio círculo nas bases do papel, aletoriamente (tanto que as marcas do grafite do compasso se inscreveram no meio círculo traçado sobre o papel). Mas, ainda, o trabalho não tinha saído do bidimensional (tanto como suporte, como recursos perspectivistas ou de cor). "Automaticamente", chega a lembrança a imagem da fita de Moebius (com sua dimensão fractalizada e não-euclidiana), bastante presente e atuante na trajetória da artista neo-concreta Lygia Pape. Recortei a figura do retângulo com as bases na forma de meio círculo voltadas para a área interna (do retângulo). O resultado deste procedimento, devido a gramatura do papel ofício, foi um objeto maleável pronto para entrar no campo "tridimensional" (ou fractal!?). Na aproximação da arte e vida, duas artistas neoconcretas, Lygia Pape e Lygia Clark desenvolveram de forma inovadora, propostas baseadas na interação entre a obra e o público. Suas trajetórias, claramente coerentes, se iniciaram num neoconcretismo ainda contido pela tradição construtivista preservada pelo movimento concretista ( que era objetivo, cientificista, cibernético, produtivo, entusiasta das teorias da informação e da comunicação, desenvolvimentista e midiático) e "evoluíram" sutilmente para a estetização da vida, através de propostas experimentais imantadas com intensidade. No último capítulo de seu livro, o crítico de arte Ronaldo Brito, além da análise formal comparativa enter a tradição concreta e a ruptura neoconcreta, no final dos anos 50 e início dos 60, no âmbito da arte brasileira, mostra as diferentes posturas, em diversas áreas do pensamento, entre estas duas visões da arte. Enquanto os concretos adotavam o causalismo mecanicista da Teoria psicológica da Gestalt (para explicar o funcionamento perceptivo), os neoconcretos filosofavam com os conceitos fenomenológicos e ontológicos da Teoria da Percepção de Merleau- Ponty, valorizando, além dos elemntos básicos de uma tradição construtiva, os aspectos metafísicos. Para o autor, o neoconcretismo definiu os rumos de nossa arte contemporânea, aproximando, com intensidade, a arte da vida. Voltando a execução do trabalho, dobrei a fita de papel, aleatoriamente, em algumas áreas e a flexibilidade obtida permite uma manipulação do objeto pelo fruidor. Neste processo relatado, primeiro realizei o trabalho e depois o comparei com algumas fotografias de obras neoconcretas do livro, e pareceu-me com as seguintes obras da Lygias, Pape e Clark: Livro da Criação (certas partes deste conjunto) e os Bichos Articuláveis ( claro que Lygia Clark utilizou outro material, alumínio com dobradiças).

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